Mathew Brady e Alexander Gardner eram os fotógrafos oficiais do Governo Unionista na Guerra Entre os Estados que devastou os EUA durante os anos de 1861/65. Mais de meio milhão de soldados morreram no conflito e incontáveis vidas civis foram perdidas. O conflito, como não poderia deixar de ser, marcou a vida de pessoas, gerou diferentes formas de se interpretar o mundo, e deixou sua marca nas canções, na literatura e até a indústria cinematográfica
teve os seus "blockbusters" sulistas: The Birth of a Nation,...Gone With the Wind e A General são os filmes representativos desta leva. O próprio Eastwood revisitaria o tema em filmes como Josey Wales. The Beguiled entra nessa categoria, obviamente não como um "blockbuster", e trás uma visão bem pouco heróica ou romantizada da Guerra. Desde o ínicio do filme, ainda nos créditos iniciais, as fotografias dos dois fotógrafos acima citados aparecem em sequência e marcam o tom, o momento histórico da narrativa: Lincoln em um acampamento, soldados em trincheiras, feridos, mortos...a guerra que devasta o país cerca o cenário desse conto de horror gótico sulista.
Após os sons de batalha e as imagens das fotografias em sépia sairem de cena, vemos Amy, uma encantadora menina, colhendo cogumelos na floresta, uma chapeuzinho vermelho sulista. Ao fundo enquanto a voz de Eastwood cantarola The Dove, uma canção da Guerra Entre os Estados:
"Take warning by me, don't go for a soldier, don't go for the army
For the dove she will leave will, the raven will come
And death will come marching at the beat of a drum
Come all you pretty fair madies who walk in the sun
And don't let your young man ever carry a gun"
A cena, como bem aponta Howard Hughes, é o típico início de um conto de fadas, mas aqui, logo o encantamento tornar-se-á um pesadelo de mentiras e dissimulações, farsas e tragédias. Ela encontra o soldado do 66º Regimento de Infantaria de Nova Iorque, John McBurney (Eastwood) ferido e o leva para a "Seminário Para Garotas Farnsworth". É lá, que cercado pelos cuidados, suspeitas, carinhos e obsessões de um grupo de mulheres que McBurney irá, através de seus próprios desejos e manipulações, encontrar seu destino.
The Beguiled é o terceiro filme da parceria Siegel/Eastwood e para muitos, a decisão de Eastwood de estrelar esta produção foi quase tão ousada e importante quanto ir para a Espanha filmar com um diretor italiano desconhecido. Don Siegel considerava esse, dentre todos os filmes que dirigiu, o seu favorito.
Jogando com a visão do cavaleiro solitário que chega à cidade e de forma "mágica" reestabelece a ordem, aqui a trama é justamento o oposto: o estranho que chega trás em seu bojo apenas o caos, destruindo a ordem e abrindo portas para pecados guardados e tentações futuras, também aqui, ao contrário destes personagens sem passado, é nos revelado o seu verdadeiro passado.Não, o "Blue Belly" não é o que diz ser...ora um quaker inocente, ora um cavaleiro em armadura para resgatar uma donzela virgem daquela fortaleza monástica, McBurney é na verdade um soldado covarde e cruel, não tem respeito pelas terras que conquista e queima as colheitas de fazendeiros sulistas (o que remente às táticas do general Sherman, um dos maiores carniceiros de qualquer época, de qualquer guerra, responsável pelo incêndio da cidade de Atlanta que é retratado em ...Gone With the Wind), além de não ser nem um pouco pudico ou discreto, McBurney usa de seu charme e presença para seduzir aquelas mulheres abandonadas e temerosas.
Muito se escreve sobre esse filme da perspectiva do homem fragilizado e emasculado (quiça, castrado!) diante da feminilidade traída (e por vezes, histérica), mas acredito que se trate mais do que isso (até por conta dos futuros questionamentos que Eastwood traria às telas), e para isso, trago uma lição adaptada da análise que Elizabeth Kantor faz da obra de Jane Austen: a miséria humana não é causada por estruturas tradicionais ou genêro, mas por pecados indivíduais (e como há pecados neste filme: assassinatos, incesto, estupro até uma certa dose de profanação). Mais, (e ainda no universo de Austen adaptado para esse filme), há uma evidente falta de auto-controle feminino no filme mas, sejamos justos, há uma abdicação de responsabilidades próprias de um homem no filme (lembrem-se que no filme ele apenas engana e trapaceia), e quando ao final do filme há a contrição do personagem de Eastwood e a aceitação de seu papel como Homem, já não há mais tempo e as rédeas do destino estão soltas.
E para encerrar, e desfazer a imagem de apenas um filme excêntrico nas carreiras de Siegel e Eastwood, gostaria de homenagear o espírito sulista com uma citação de sua maior escritora; "...there was a good deal of grotesque (in American Literatura) which came from the frontier and was supposed to be funny; but our present grotesque characters, comic thought they may be, are at least not primarily so. They seem to carry an invisible burden: their facaticism is a reproach, not merely an eccentrecy."
"Well, i'm a fast talking, hell raising, son of a bitch and i'm a sinner and i know how to fight well, i can leave you if i wanna, little baby and i'm gonna tonight. cause i got a bucket full of tears and a hard luck story there's a bad moon rising behind!" Whiskeytown
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sábado, julho 10, 2010
quarta-feira, julho 07, 2010
Algumas idéias sobre Coogan's Bluff
O filme que marca a transição de Eastwood do cowboy solitário para a cidade grande, é também o primeiro filme com o diretor Don Siegel, que viria a tornar-se a segunda e talvez a principal influência no futuro de Eastwood no modo de lidar com a produção e direção de filmes (a primeira influência é Sérgio Leone). Juntos, fizeram dois dos mais memoráveis filmes do cânone eastwoodiano: Dirty Harry e Escape From Alcatraz.
Siegel começou a trabalhar na Warner em 1934, onde tornou-se responsável pelo departamento de montagens do estúdio (a montagem da abertura do filme Casablanca é dele), mais tarde, torna-se diretor, entre seus filmes, o Invasores de Corpos original, Hell is for Heroes com o iniciante Steve McQueen e com Lee Marvin em The Killers, como se não bastasse, dirigiu ninguém menos do que Elvis Presley no filme Flaming Star. Sua marca registrada era o fato de trabalhar dentro do orçamento (muitas vezes pequeno) e filmar de forma rápida e prática. A falta de um diretor aceitável, os vários roteiros insatisfatórios e um prazo curto para as filmagens, levaram Siegel ao set de Coogan's Bluff. E assim, a uma das parcerias mais importantes do cinema teve início.
O plot do filme é simples, um policial do Arizona (não é o Texas!) vai a Nova Iorque fazer a transferência de um preso para ser julgado no Arizona. Não podendo fazer a transferência de imediato, afinal o preso está em uma prisão-hospital recuperando-se de uma viagem de LSD, Coogan é obrigado a conviver com a cidade grande e esperar a liberação do bandido. Mas como Coogan acha que pode resolver as coisas a seu modo, termina por dar um blefe (daí o título do filme...mas pode ser também por conta da luta final, que ocorre em um parque em NY chamado Coogan's Bluff (ribanceira)). Mas as coisas saem do controle e ele vai ter que caçar o sujeito na urbana e decadente Nova Iorque.
Coogan, com seu jeito hora Wyatt Earp, hora Buffalo Bill, termina por ser a antítese mesma da cidade: as passagens dele interagindo com a fauna nova-iorquina apresenta cenas do mais absoluto politicamento incorreto. Feito em 1968 o filme vai totalmento contra o zeitgeist do momento. E a história é explícita neste ponto, afinal uma trama onde o herói é um hillbilly e os vilões estejam envolvidos com a sub-cultura hippie da época não tem como deixar mais claro de que lado o herói está.. (há uma cena de Coogan anda em meio a uma festa na boate "The Pigeon-Toed Orange Peel" cercado por hippies, gays e drogados, com projeções passando ao fundo cenas de fimes à la Warhol, (inclusive uma curiosa projeção de uma tarântula gigante, cena tirada de filme B que Eastwood fez nos anos 50), esta momento no filme é um dos mais ousadas defesas do indíviduo contra a massa left-wing já feita no cinema)... Mas também temos os conflitos com outros temas: a burocracia, que impede a rápida transferência do prisioneiro, o psicologismo que tenta compartimentar o Homem (é hilária a conversa de entre Coogan com uma psicóloga do departamento, que tenta analisar o comportamento dele, em um momento chamando-o de enigmático para o que ele responde"enig-what?", etc.
Howard Hughes, crítico de cinema e autor de Aim For The Heart - The Movies of C. Eatwood, também aponta que no tratamento aos criminosos é possível ver os primeiros indícios de Dirty Harry e há trechos do diálogo que irão ecoar depois na voz do detetive de São Francisco . Em uma cena, Coogan ameaça um hippie (Albert Popwell) que aponta um canivete para ele com a frase "Mister Wonderful whatever-your-name-is. You better drop that blade, or you won't believe what happens next - even while it's happening", curiosamente, Albert Popwell é o assaltante do início de Dirty Harry, o "punk" com sorte. Outra frase que remete diretamente a Harry é quando, ainda no Arizona, seu superior diz para ele que, continuando a agir como um "lonesome boy" ele irá ter que fazer "every lousy one-man job that comes along".
Com cenas de ação, ironia e um Eastwood ávido em observar e aprender com Siegel, Coogan's Bluff contém elementos que tornar-se-ão marca registrada da parceria Siegel/Eastwood. Uma boa trama, uma direção contida e prática, não perdendo tempo com psicologismos e discursos vazios. É simples, direto e funciona. Futuramente, obras-primas nasceriam desse método.
Siegel começou a trabalhar na Warner em 1934, onde tornou-se responsável pelo departamento de montagens do estúdio (a montagem da abertura do filme Casablanca é dele), mais tarde, torna-se diretor, entre seus filmes, o Invasores de Corpos original, Hell is for Heroes com o iniciante Steve McQueen e com Lee Marvin em The Killers, como se não bastasse, dirigiu ninguém menos do que Elvis Presley no filme Flaming Star. Sua marca registrada era o fato de trabalhar dentro do orçamento (muitas vezes pequeno) e filmar de forma rápida e prática. A falta de um diretor aceitável, os vários roteiros insatisfatórios e um prazo curto para as filmagens, levaram Siegel ao set de Coogan's Bluff. E assim, a uma das parcerias mais importantes do cinema teve início.
O plot do filme é simples, um policial do Arizona (não é o Texas!) vai a Nova Iorque fazer a transferência de um preso para ser julgado no Arizona. Não podendo fazer a transferência de imediato, afinal o preso está em uma prisão-hospital recuperando-se de uma viagem de LSD, Coogan é obrigado a conviver com a cidade grande e esperar a liberação do bandido. Mas como Coogan acha que pode resolver as coisas a seu modo, termina por dar um blefe (daí o título do filme...mas pode ser também por conta da luta final, que ocorre em um parque em NY chamado Coogan's Bluff (ribanceira)). Mas as coisas saem do controle e ele vai ter que caçar o sujeito na urbana e decadente Nova Iorque.
Coogan, com seu jeito hora Wyatt Earp, hora Buffalo Bill, termina por ser a antítese mesma da cidade: as passagens dele interagindo com a fauna nova-iorquina apresenta cenas do mais absoluto politicamento incorreto. Feito em 1968 o filme vai totalmento contra o zeitgeist do momento. E a história é explícita neste ponto, afinal uma trama onde o herói é um hillbilly e os vilões estejam envolvidos com a sub-cultura hippie da época não tem como deixar mais claro de que lado o herói está.. (há uma cena de Coogan anda em meio a uma festa na boate "The Pigeon-Toed Orange Peel" cercado por hippies, gays e drogados, com projeções passando ao fundo cenas de fimes à la Warhol, (inclusive uma curiosa projeção de uma tarântula gigante, cena tirada de filme B que Eastwood fez nos anos 50), esta momento no filme é um dos mais ousadas defesas do indíviduo contra a massa left-wing já feita no cinema)... Mas também temos os conflitos com outros temas: a burocracia, que impede a rápida transferência do prisioneiro, o psicologismo que tenta compartimentar o Homem (é hilária a conversa de entre Coogan com uma psicóloga do departamento, que tenta analisar o comportamento dele, em um momento chamando-o de enigmático para o que ele responde"enig-what?", etc.
Howard Hughes, crítico de cinema e autor de Aim For The Heart - The Movies of C. Eatwood, também aponta que no tratamento aos criminosos é possível ver os primeiros indícios de Dirty Harry e há trechos do diálogo que irão ecoar depois na voz do detetive de São Francisco . Em uma cena, Coogan ameaça um hippie (Albert Popwell) que aponta um canivete para ele com a frase "Mister Wonderful whatever-your-name-is. You better drop that blade, or you won't believe what happens next - even while it's happening", curiosamente, Albert Popwell é o assaltante do início de Dirty Harry, o "punk" com sorte. Outra frase que remete diretamente a Harry é quando, ainda no Arizona, seu superior diz para ele que, continuando a agir como um "lonesome boy" ele irá ter que fazer "every lousy one-man job that comes along".
Com cenas de ação, ironia e um Eastwood ávido em observar e aprender com Siegel, Coogan's Bluff contém elementos que tornar-se-ão marca registrada da parceria Siegel/Eastwood. Uma boa trama, uma direção contida e prática, não perdendo tempo com psicologismos e discursos vazios. É simples, direto e funciona. Futuramente, obras-primas nasceriam desse método.
segunda-feira, julho 05, 2010
Algumas idéias sobre "The Good, the Bad and the Ugly"
"Quando eu era pequeno, sonhava com westerns, heróis e bandidos..."
Sérgio Leone
"The Good, the Bad and the Ugly" foi o primeiro western, o primeio filme de Sérgio Leone e o primeiro filme de Eastwood que assisti. Isso foi em 1984 e acabara de ir morar com meu pai, com quem não vivia desde os 3 anos de idade. Não sei como, acredito que por causa de uma propaganda na TV anunciando a exibição do filme, meu pai disse que gostava muito dele.
O que sei é que fiquei a madrugada (pois o filme passou em uma das sessões do antigo Corujão, da Globo) encantado, ou melhor, embasbacado, pela jornada desses três cowboys tão estranhos, Angel Eyes, Tuco e Blondie (respectivamente interpretados por Lee Van Cleef, Eli Wallach e Clint Eastwood) através das paisagens ora desérticas, ora cheia de rostos que eram em si mesmos, paisagens marcadas pelo tempo.
A história se passa durante a Guerra entre os Estados (vulgarmente, Guerra Civil Americana), quando as forças Confederadas comandadas pelo General Sibley (um inapto, responsável pelo fracasso da expedição: uns dizem que por culpa do alcoolismo, outros, por covardia), invandem o Novo México a partir do Texas. Neste cenário devastado, encontraremos as três personagens, que, por coincidência, brutalidade ou destino, ficam sabendo que duzentos mil dólares em moedas de ouro estão enterrados em um cemitério.
Mas, para chegar ao ouro (e ao cemitério, isto é ao fim de tudo) é necessário antes, que eles atravessem experiências e situações que vão, como em toda boa história, revelando e afetando a personalidade deles.
E aqui, Leone já não tem as limitações orçamentárias de seus filmes anteriores, e com um grande estúdio por trás, floresce de vez o seu estilo, permitindo que a jornada seja grandiosa, quase homérica.
O filme é preenchido com uma sinfonia de sons naturais: é possível ouvir o vento soprando a areia do deserto, o ranger de portas, lonas sendo agitadas, o arrastar dos pés e o tilintar de esporas, o som das armas de fogo sendo engatilhadas. Toda essa sinfonia serve para abrir espaço para um dos mais bem utilizados elementos do filme: o silêncio, que tanto quanto a música orquestral (composta novamente por Ennio Morricone) é parte importante na criação da tensão ou preparação para a explosão de violência que muitas vezes se segue.
O impacto das imagens e dos rostos (imagino o que é ver esse filme em um cinema e não apenas na televisão), mesmo em uma tela pequena, é magnífico, devastador. Leone contrapõe grandes paisagens, a vastidão do oeste (não temos como acreditar que aquelas paisagens não são do Oeste Americano de John Ford, mas como diz o critíco e biógrafo de Eastwood, Richard Schickel, o que importa é que o diretor consiga uma "plausibilidade emocional" e não factual, assim, para nós, aquilo é o Novo México), essas tomadas, onde a vastidão parece engolir as personagens, de repente é cortada para um rosto em close-ups nunca vistos ou usados de maneira tão "fotográfica" ou estática no cinema (salvo nos próprios filmes de Leone). Para Leone, mesmo o mais insignificante dos extras merecia ter um rosto, merecia ter uma história revelada por suas rugas ou cicatrizes.
Para completar a narrativa, há ainda a impressionante música de Ennio Morricone, que compos a maior parte da trilha sonora antes de ser filmada qualquer cena do filme, o que levou muitos críticos a acreditarem na concepção operística do mesmo. Usando elementos modernos, Morricone foi capaz de captar e recriar a sinfonia de sons naturais do filme. O maior exemplo disso é no início do filme, onde ouvimos um coiote uivar ao fundo, dando o fraseado para a entrada de um dos temas mais reconhecidos da história dos westerns: "Ay-ey-ay-ey-ahhh!" e depois o "Wah-wah-wah!", que até hoje tem o poder de transportar o ouvinte para uma era de foras da lei, onde "as histórias tinham a liberdade para expressar qualquer tipo de ação, boa, má ou mais ou menos", nas palavras do próprio Leone. Mas outros temas são trabalhados magnifcamente, "La Carroza dei Fantasmi", "La Storia de Un Soldato" e o "Il Trielo" reforçam a mitologia do filme de forma inquestionável.
Uma das passagens mais tocantes e ao mesmo tempo violentas do filme (à época, críticas chegaram a dizer que a cena era de um masoquismo inaceitável), usa a canção "La Storia de Un Soldato", para abafar a tortura que o personagem de Tuco sofre nas mão do Sargento Wallace (Mario Brega) em um campo de concentração para soldados confederados. Esta cena é uma referência direta aos campos de concentração nazistas. Este tipo de referência será levada a novos patamares e discussões no filme "Duck, you sucker!", uma reflexão sobre a destruição causada pelas revoluções na vida e alma dos Homens.
Abaixo, a letra da música:
"Bugles are calling from prairie to shore,
"Sign up" and "Fall In" and march off to war.
Blue grass and cotton, burnt and forgotten
All hope seems gone so soldier march on to die.
Bugles are calling from prairie to shore,
"Sign up" and "Fall In" and march off to war.
There in the distance a flag I can see,
Scorched and in ribbons but whose can it be,
How ends the story, whose is the glory
Ask if we dare, our comrades out there who sleep."
A tríplice jornada (que leva aproximadamente 8 meses para ser completada), acompanha os personagens através de cidades devastadas pela guerra, desertos escaldantes e mortais, pequenos mosteiros que servem de abrigo para soldados mutilados, campos de concentração e por fim, a um vasto cemitério e a um caixão cheio de ouro.
Nesta jornada, as personalidades das personagens vai revelando-se para nós. Angel Eyes torna-se cada vez mais bruto e cruel, um ganâncioso e mesquinho assassino de aluguel. Tuco Ramirez, é o personagem mais interessante (e interpretado de forma dinâmica e explosiva por Eli Wallach, ele termina roubando o filme), o que mais se aproxima de nós, em sua amoralidade, em sua forma de buscar sobreviver e adaptar-se às situações mais extremas. Também é o único personagem que tem um passado, uma família (mesmo que fragmentada) e um apreço pela religião (o final, com Tuco equilibrando-se em uma cruz no cemitério, é mais um indicador da importância da religião católica para Leone, por mais fragilizada que ela se encontre em suas histórias). E Blondie, o personagem de Eastwood, é provavelmente o mais compassivo de seus personagens cowboys. Como bem nota Howard Hughes em sua análise da interpretação de Eastwood, aqui há "mais segurança e menos esforço, ele domina os maneirismos do personagem de forma completa...o meio sorriso, os longos silencios, o cigarro em sua boca. Mas ao mesmo tempo encontramos momentos de maior humildade e humanidade, que mesmo nos personagens (cowboys) mais maduros de Eastwood seriam raros"
Este foi o último trabalho de Leone com Eastwood, eles não trabalhariam juntos e por muito tempo, Leone guardou mágoas com Eastwood por conta da recusa deste em trabalhar novamente nos projetos do diretor. Seja por estar cansado do mesmo personagem, seja por não querer envolver-se em projetos maiores (ou gigantescos, para ser justo com o ego de Leone), sabe-se que pouco antes da morte de Leone, eles encontraram-se e tiveram bons momentos juntos. Unforgiven, a obra-prima de Eastwood foi dedicado a doisde seus mestres, Donald Siegel e Sérgio Leone.
Essa é uma apresentação de um cineasta que mesmo apaixonado pelo Western, ousou violar a forma e a tradição deste, aprofundando os temas e a estética, revitalizando o gênero e tornando-o moderno. Dessa forma, Leone consegue aprofundar também temas como ética, religião, amizade e família de forma a resgatar esses elementos na história de seus personagens e sua importância para a vida cotidiana.
Mas isso tudo, toda essa análise acima, nada mais é do que tentar transpor o sentimento, a emoção, a fantasia que invadiu a mente de um garoto há muitos anos atrás, e que, fazem parte da minha vida até hoje. Mesmo através daquelas imagens de um colorido vago (era uma velha TV a do meu pai), a força do filme, sua mitologia e magnitude deixaram uma indelével marca e entraram para o meu cânone pessoal.
E sempre que vejo o filme,ao final, "Il Trielo" ecoando, Blondie cavalgando na vasta paisagem e as últimas palavras de Tuco Ramirez, tenho vontade de levantar-me, aplaudir e gritar "Bravo! Bravo! Bravo!" "Grazie Signore Leone!"...e refletindo neste momento, ainda tenho que agradecer ao meu pai por ter, sem saber, mostrado uma das maiores obras-primas do cinema para seu filho.
Sérgio Leone
"The Good, the Bad and the Ugly" foi o primeiro western, o primeio filme de Sérgio Leone e o primeiro filme de Eastwood que assisti. Isso foi em 1984 e acabara de ir morar com meu pai, com quem não vivia desde os 3 anos de idade. Não sei como, acredito que por causa de uma propaganda na TV anunciando a exibição do filme, meu pai disse que gostava muito dele.
O que sei é que fiquei a madrugada (pois o filme passou em uma das sessões do antigo Corujão, da Globo) encantado, ou melhor, embasbacado, pela jornada desses três cowboys tão estranhos, Angel Eyes, Tuco e Blondie (respectivamente interpretados por Lee Van Cleef, Eli Wallach e Clint Eastwood) através das paisagens ora desérticas, ora cheia de rostos que eram em si mesmos, paisagens marcadas pelo tempo.
A história se passa durante a Guerra entre os Estados (vulgarmente, Guerra Civil Americana), quando as forças Confederadas comandadas pelo General Sibley (um inapto, responsável pelo fracasso da expedição: uns dizem que por culpa do alcoolismo, outros, por covardia), invandem o Novo México a partir do Texas. Neste cenário devastado, encontraremos as três personagens, que, por coincidência, brutalidade ou destino, ficam sabendo que duzentos mil dólares em moedas de ouro estão enterrados em um cemitério.
Mas, para chegar ao ouro (e ao cemitério, isto é ao fim de tudo) é necessário antes, que eles atravessem experiências e situações que vão, como em toda boa história, revelando e afetando a personalidade deles.
E aqui, Leone já não tem as limitações orçamentárias de seus filmes anteriores, e com um grande estúdio por trás, floresce de vez o seu estilo, permitindo que a jornada seja grandiosa, quase homérica.
O filme é preenchido com uma sinfonia de sons naturais: é possível ouvir o vento soprando a areia do deserto, o ranger de portas, lonas sendo agitadas, o arrastar dos pés e o tilintar de esporas, o som das armas de fogo sendo engatilhadas. Toda essa sinfonia serve para abrir espaço para um dos mais bem utilizados elementos do filme: o silêncio, que tanto quanto a música orquestral (composta novamente por Ennio Morricone) é parte importante na criação da tensão ou preparação para a explosão de violência que muitas vezes se segue.
O impacto das imagens e dos rostos (imagino o que é ver esse filme em um cinema e não apenas na televisão), mesmo em uma tela pequena, é magnífico, devastador. Leone contrapõe grandes paisagens, a vastidão do oeste (não temos como acreditar que aquelas paisagens não são do Oeste Americano de John Ford, mas como diz o critíco e biógrafo de Eastwood, Richard Schickel, o que importa é que o diretor consiga uma "plausibilidade emocional" e não factual, assim, para nós, aquilo é o Novo México), essas tomadas, onde a vastidão parece engolir as personagens, de repente é cortada para um rosto em close-ups nunca vistos ou usados de maneira tão "fotográfica" ou estática no cinema (salvo nos próprios filmes de Leone). Para Leone, mesmo o mais insignificante dos extras merecia ter um rosto, merecia ter uma história revelada por suas rugas ou cicatrizes.
Para completar a narrativa, há ainda a impressionante música de Ennio Morricone, que compos a maior parte da trilha sonora antes de ser filmada qualquer cena do filme, o que levou muitos críticos a acreditarem na concepção operística do mesmo. Usando elementos modernos, Morricone foi capaz de captar e recriar a sinfonia de sons naturais do filme. O maior exemplo disso é no início do filme, onde ouvimos um coiote uivar ao fundo, dando o fraseado para a entrada de um dos temas mais reconhecidos da história dos westerns: "Ay-ey-ay-ey-ahhh!" e depois o "Wah-wah-wah!", que até hoje tem o poder de transportar o ouvinte para uma era de foras da lei, onde "as histórias tinham a liberdade para expressar qualquer tipo de ação, boa, má ou mais ou menos", nas palavras do próprio Leone. Mas outros temas são trabalhados magnifcamente, "La Carroza dei Fantasmi", "La Storia de Un Soldato" e o "Il Trielo" reforçam a mitologia do filme de forma inquestionável.
Uma das passagens mais tocantes e ao mesmo tempo violentas do filme (à época, críticas chegaram a dizer que a cena era de um masoquismo inaceitável), usa a canção "La Storia de Un Soldato", para abafar a tortura que o personagem de Tuco sofre nas mão do Sargento Wallace (Mario Brega) em um campo de concentração para soldados confederados. Esta cena é uma referência direta aos campos de concentração nazistas. Este tipo de referência será levada a novos patamares e discussões no filme "Duck, you sucker!", uma reflexão sobre a destruição causada pelas revoluções na vida e alma dos Homens.
Abaixo, a letra da música:
"Bugles are calling from prairie to shore,
"Sign up" and "Fall In" and march off to war.
Blue grass and cotton, burnt and forgotten
All hope seems gone so soldier march on to die.
Bugles are calling from prairie to shore,
"Sign up" and "Fall In" and march off to war.
There in the distance a flag I can see,
Scorched and in ribbons but whose can it be,
How ends the story, whose is the glory
Ask if we dare, our comrades out there who sleep."
A tríplice jornada (que leva aproximadamente 8 meses para ser completada), acompanha os personagens através de cidades devastadas pela guerra, desertos escaldantes e mortais, pequenos mosteiros que servem de abrigo para soldados mutilados, campos de concentração e por fim, a um vasto cemitério e a um caixão cheio de ouro.
Nesta jornada, as personalidades das personagens vai revelando-se para nós. Angel Eyes torna-se cada vez mais bruto e cruel, um ganâncioso e mesquinho assassino de aluguel. Tuco Ramirez, é o personagem mais interessante (e interpretado de forma dinâmica e explosiva por Eli Wallach, ele termina roubando o filme), o que mais se aproxima de nós, em sua amoralidade, em sua forma de buscar sobreviver e adaptar-se às situações mais extremas. Também é o único personagem que tem um passado, uma família (mesmo que fragmentada) e um apreço pela religião (o final, com Tuco equilibrando-se em uma cruz no cemitério, é mais um indicador da importância da religião católica para Leone, por mais fragilizada que ela se encontre em suas histórias). E Blondie, o personagem de Eastwood, é provavelmente o mais compassivo de seus personagens cowboys. Como bem nota Howard Hughes em sua análise da interpretação de Eastwood, aqui há "mais segurança e menos esforço, ele domina os maneirismos do personagem de forma completa...o meio sorriso, os longos silencios, o cigarro em sua boca. Mas ao mesmo tempo encontramos momentos de maior humildade e humanidade, que mesmo nos personagens (cowboys) mais maduros de Eastwood seriam raros"
Este foi o último trabalho de Leone com Eastwood, eles não trabalhariam juntos e por muito tempo, Leone guardou mágoas com Eastwood por conta da recusa deste em trabalhar novamente nos projetos do diretor. Seja por estar cansado do mesmo personagem, seja por não querer envolver-se em projetos maiores (ou gigantescos, para ser justo com o ego de Leone), sabe-se que pouco antes da morte de Leone, eles encontraram-se e tiveram bons momentos juntos. Unforgiven, a obra-prima de Eastwood foi dedicado a doisde seus mestres, Donald Siegel e Sérgio Leone.
Essa é uma apresentação de um cineasta que mesmo apaixonado pelo Western, ousou violar a forma e a tradição deste, aprofundando os temas e a estética, revitalizando o gênero e tornando-o moderno. Dessa forma, Leone consegue aprofundar também temas como ética, religião, amizade e família de forma a resgatar esses elementos na história de seus personagens e sua importância para a vida cotidiana.
Mas isso tudo, toda essa análise acima, nada mais é do que tentar transpor o sentimento, a emoção, a fantasia que invadiu a mente de um garoto há muitos anos atrás, e que, fazem parte da minha vida até hoje. Mesmo através daquelas imagens de um colorido vago (era uma velha TV a do meu pai), a força do filme, sua mitologia e magnitude deixaram uma indelével marca e entraram para o meu cânone pessoal.
E sempre que vejo o filme,ao final, "Il Trielo" ecoando, Blondie cavalgando na vasta paisagem e as últimas palavras de Tuco Ramirez, tenho vontade de levantar-me, aplaudir e gritar "Bravo! Bravo! Bravo!" "Grazie Signore Leone!"...e refletindo neste momento, ainda tenho que agradecer ao meu pai por ter, sem saber, mostrado uma das maiores obras-primas do cinema para seu filho.
quinta-feira, julho 01, 2010
"Duck, you sucker!" ou "A Fistfull of Dynamite"...
...ou ainda, "Once upon a time in the Revolution".
Pela variedade de títulos dados ao filme, já podemos antever a confusão que envolveu a produção deste que talvez seja o mais profundo filme de Leone.
Ambientada na Revolução Mexicana, "Duck, you sucker!" conta a história de amizade entre Juan Miranda (Rod Steiger) e John Mallory (James Coburn). Dois personagens que irão crescer ao longo da trama e dos acontecimentos da Revolução.
Mas antes, alguns detalhes sobre a produção do filme:
Em primeiro lugar a direção do filme não era inicialmente de Leone. O primeiro nome escolhido foi de Peter Bogdanovich, que abandona o set por razões diversas. Uma delas indica que Leone, apesar de não dirigir o filme, fazia-se presente, e em uma discussão com Bogdanovich, insiste para este que há necessidade de close-ups (marca característica de Leone), Bogdanovich termina a conversa dizendo simplesmente que não gosta da técnica. Outro nome cotado foi o de Sam Peckinpah. Ao final, Giancarlo Santi, que era assistente de direção de Leone, assume o comando, mas logo Coburn e Steiger convencem Sérgio de que ele devia dirigir o filme afinal.
A escolha dos atores também não foi fácil, variando de Jason Robards a Clint Eastwood, o papel de John Mallory terminou com James Coburn (que no ano anterior havia interpretado soberbamente Pat Garrett no filme de Sam Peckinpah - Pat Garret & Billy, the Kid). Para o personagem de Juan Miranda, a escolha inical era de Eli Wallach (Tuco, de The Good, the Bad...), mas com a recusa deste e a pressão do estúdio por um ator mais conhecido, o papel termina nas mãos de Rod Steiger.
Mas o grande problema do filme são acontecem na montagem. Esta termina por cortar várias cenas que eram, ou muito violentas e profanas ou abordavam questões políticas que eram sensíveis à época, o que foi (e é uma pena),. O filme ainda teve exibições com cópias ruins, com lapsos de roteiro gritantes (dois desses lapsos permanecem mesmo na edição restaurada. Existem fotos que mostram as cenas, mas não foi possível a recuperação delas).
Ainda houve uma confusão dos diabos por conta da escolha do títulos, que variou nos EUA de "Duck, you sucker!" a "A Fistfull of Dynamite", o título mais apropriado "Once Upon A Time in the Revolution" foi usado na França.
Voltando à trama:
"Revolution is not a dinner party, nor an essay, nor a painting, nor a piece of embroidery; it cannot be advanced softly, gradually, carefully, considerately, respectfully, politely, plainly, and modestly. A revolution is an insurrection, an act of violence..." Mao Zedong
A história começa apresentando o personagem de Steiger, Juan Miranda, um bandido mexicano que com sua família de pequenos bandidos (é entre o hilário e o assustador que vemos crianças agindo de forma violenta e carregando armas, de forma realista aqui, não com aspecto de paródia como em "Kick-Ass")...mas a família de Miranda, apesar do anarquismo e violência, é a representação máxima da importância do núcleo familiar, dos laços de sangue e de amizade.
Ao final de um assalto, Miranda e sua família ouvem explosões e terminam por encontrar John Mallory, um especialista em explosivos e fugitivo da coroa Britânica por ser ativista do IRA.
Juan e John, ou Johnny & Johnny, formam uma camaradagem entre o cômico e o cínico, um tripudiando do outro e trocando farpas recíprocas, mas durante a trama, ou durante os fatos da Revolução esta amizada irá se aprofundar, e criar laços mais fortes do que uma simples camaradagem.
Logo descobrimos que Mallory está unido com os revolucionários que planejam a destituição de Porfírio Dias, mas suas conversas com Miranda vão mostrando para ele que a realidade e as consequências de uma revolução é outra, não aquela idealizada pelos revolucionários.
Em uma cena onde Mallory discute os ideais da revolução, é Miranda que diz a verdade: "Uma revolução nada mais é que pessoas que sabem ler, dizem as que não sabem, que as coisas tem que mudar! E no final, as pessoas que sabem ler, continuam comendo e bebendo em suas mesas e as que não sabem ler, os pobres, sabe o que acontece com eles? Estão todos mortos!" Afetado por estas palavras, Mallory joga na lama um livro que está lendo "O Espírito Nacionalista" de Michael Bakunin. É uma das cenas mais importantes do filme, onde o "intelectual revolucionário" se dá conta, através do "homem comum", de um "pai de família", que "ideas have consequences".
Mas os acontecimentos da revolução vão engolindo os dois personagens: traições, assassinatos em massa (de ambos os lados do conflito) e tragédias pessoais, vão tornando o filme, inicialmente bem humorado e leve, em sombrio e melancólico. Dos filmes de Leone, este talvez seja aquele que vai mais profundamente na construção trágica dos personagens. É um filme onde, diferente dos outros, as ações trazem consequências, e pessoas e famílias morrem por conta dessas ações.
Outro aspecto importante é que, apesar de Leone afirmar que não era um filme político, não tem como não perceber sua intenção em derribar o "Mito da Revolução", mostrando que nada de bom pode acontecer em uma revolução, não há redenção, não há heróis, nada resta de sagrado ou familiar. Há apenas, uma violência, por vezes descontrolada, por vezes mecanizada e assustadoramente repetitiva.
Ao terminar o filme, com estupor, percebemos que o que importa nesta vida pode ser resumido em três coisas: amizades, família e religião. E que ao perdermos tudo isso, só nos resta perguntar "Que farei agora?"
====================================================================
A edição que assisti é a edição restaurada de em 157 minutos que a MGM lançou em DVD em 2007.
Esta edição trás cenas inéditas que foram inseridas na trama, entre elas, uma espetacular sequência de assassinatos em massa que ecoa toda a tragédia dos genocídios do Séc. XX.
Infelizmente duas cenas cruciais para a trama não foram encontradas...uma que mostrava o personagem de Coburn sendo torturado por um dos filhos de Miranda (ele é obrigado a andar pelo deserto, como Tuco faz com Blondie em "The Good, the Bad...) e outra, talvez a mais importante, onde um dos cabeças dos revolucionários, Doutor Villega, é torturado e entrega seus amigos, causando mortes que irão afetar os personagens profundamente.
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Sobre as consequências e tragédias provocadas pelas revoluções, recomendo assisitir a três outros filmes: "Marie Antoniette" de Sofia Coppola, "A inglesa e o duque" de Eric Rohmer, e não sendo uma revolução, mas uma guerra civil, não há melhor paralelo para "Suck, you duck!" do que o filme "Shenandoah" de 1965, filme de Andrew McLaglen, com James Stewart no papel de um chefe de uma família no estado da Virgínia que é engolida pela "Guerra entre os Estados". Mas aqui, ao contrário do filme de Leone, há esperança ao final.
Pela variedade de títulos dados ao filme, já podemos antever a confusão que envolveu a produção deste que talvez seja o mais profundo filme de Leone.
Ambientada na Revolução Mexicana, "Duck, you sucker!" conta a história de amizade entre Juan Miranda (Rod Steiger) e John Mallory (James Coburn). Dois personagens que irão crescer ao longo da trama e dos acontecimentos da Revolução.
Mas antes, alguns detalhes sobre a produção do filme:
Em primeiro lugar a direção do filme não era inicialmente de Leone. O primeiro nome escolhido foi de Peter Bogdanovich, que abandona o set por razões diversas. Uma delas indica que Leone, apesar de não dirigir o filme, fazia-se presente, e em uma discussão com Bogdanovich, insiste para este que há necessidade de close-ups (marca característica de Leone), Bogdanovich termina a conversa dizendo simplesmente que não gosta da técnica. Outro nome cotado foi o de Sam Peckinpah. Ao final, Giancarlo Santi, que era assistente de direção de Leone, assume o comando, mas logo Coburn e Steiger convencem Sérgio de que ele devia dirigir o filme afinal.
A escolha dos atores também não foi fácil, variando de Jason Robards a Clint Eastwood, o papel de John Mallory terminou com James Coburn (que no ano anterior havia interpretado soberbamente Pat Garrett no filme de Sam Peckinpah - Pat Garret & Billy, the Kid). Para o personagem de Juan Miranda, a escolha inical era de Eli Wallach (Tuco, de The Good, the Bad...), mas com a recusa deste e a pressão do estúdio por um ator mais conhecido, o papel termina nas mãos de Rod Steiger.
Mas o grande problema do filme são acontecem na montagem. Esta termina por cortar várias cenas que eram, ou muito violentas e profanas ou abordavam questões políticas que eram sensíveis à época, o que foi (e é uma pena),. O filme ainda teve exibições com cópias ruins, com lapsos de roteiro gritantes (dois desses lapsos permanecem mesmo na edição restaurada. Existem fotos que mostram as cenas, mas não foi possível a recuperação delas).
Ainda houve uma confusão dos diabos por conta da escolha do títulos, que variou nos EUA de "Duck, you sucker!" a "A Fistfull of Dynamite", o título mais apropriado "Once Upon A Time in the Revolution" foi usado na França.
Voltando à trama:
"Revolution is not a dinner party, nor an essay, nor a painting, nor a piece of embroidery; it cannot be advanced softly, gradually, carefully, considerately, respectfully, politely, plainly, and modestly. A revolution is an insurrection, an act of violence..." Mao Zedong
A história começa apresentando o personagem de Steiger, Juan Miranda, um bandido mexicano que com sua família de pequenos bandidos (é entre o hilário e o assustador que vemos crianças agindo de forma violenta e carregando armas, de forma realista aqui, não com aspecto de paródia como em "Kick-Ass")...mas a família de Miranda, apesar do anarquismo e violência, é a representação máxima da importância do núcleo familiar, dos laços de sangue e de amizade.
Ao final de um assalto, Miranda e sua família ouvem explosões e terminam por encontrar John Mallory, um especialista em explosivos e fugitivo da coroa Britânica por ser ativista do IRA.
Juan e John, ou Johnny & Johnny, formam uma camaradagem entre o cômico e o cínico, um tripudiando do outro e trocando farpas recíprocas, mas durante a trama, ou durante os fatos da Revolução esta amizada irá se aprofundar, e criar laços mais fortes do que uma simples camaradagem.
Logo descobrimos que Mallory está unido com os revolucionários que planejam a destituição de Porfírio Dias, mas suas conversas com Miranda vão mostrando para ele que a realidade e as consequências de uma revolução é outra, não aquela idealizada pelos revolucionários.
Em uma cena onde Mallory discute os ideais da revolução, é Miranda que diz a verdade: "Uma revolução nada mais é que pessoas que sabem ler, dizem as que não sabem, que as coisas tem que mudar! E no final, as pessoas que sabem ler, continuam comendo e bebendo em suas mesas e as que não sabem ler, os pobres, sabe o que acontece com eles? Estão todos mortos!" Afetado por estas palavras, Mallory joga na lama um livro que está lendo "O Espírito Nacionalista" de Michael Bakunin. É uma das cenas mais importantes do filme, onde o "intelectual revolucionário" se dá conta, através do "homem comum", de um "pai de família", que "ideas have consequences".
Mas os acontecimentos da revolução vão engolindo os dois personagens: traições, assassinatos em massa (de ambos os lados do conflito) e tragédias pessoais, vão tornando o filme, inicialmente bem humorado e leve, em sombrio e melancólico. Dos filmes de Leone, este talvez seja aquele que vai mais profundamente na construção trágica dos personagens. É um filme onde, diferente dos outros, as ações trazem consequências, e pessoas e famílias morrem por conta dessas ações.
Outro aspecto importante é que, apesar de Leone afirmar que não era um filme político, não tem como não perceber sua intenção em derribar o "Mito da Revolução", mostrando que nada de bom pode acontecer em uma revolução, não há redenção, não há heróis, nada resta de sagrado ou familiar. Há apenas, uma violência, por vezes descontrolada, por vezes mecanizada e assustadoramente repetitiva.
Ao terminar o filme, com estupor, percebemos que o que importa nesta vida pode ser resumido em três coisas: amizades, família e religião. E que ao perdermos tudo isso, só nos resta perguntar "Que farei agora?"
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A edição que assisti é a edição restaurada de em 157 minutos que a MGM lançou em DVD em 2007.
Esta edição trás cenas inéditas que foram inseridas na trama, entre elas, uma espetacular sequência de assassinatos em massa que ecoa toda a tragédia dos genocídios do Séc. XX.
Infelizmente duas cenas cruciais para a trama não foram encontradas...uma que mostrava o personagem de Coburn sendo torturado por um dos filhos de Miranda (ele é obrigado a andar pelo deserto, como Tuco faz com Blondie em "The Good, the Bad...) e outra, talvez a mais importante, onde um dos cabeças dos revolucionários, Doutor Villega, é torturado e entrega seus amigos, causando mortes que irão afetar os personagens profundamente.
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Sobre as consequências e tragédias provocadas pelas revoluções, recomendo assisitir a três outros filmes: "Marie Antoniette" de Sofia Coppola, "A inglesa e o duque" de Eric Rohmer, e não sendo uma revolução, mas uma guerra civil, não há melhor paralelo para "Suck, you duck!" do que o filme "Shenandoah" de 1965, filme de Andrew McLaglen, com James Stewart no papel de um chefe de uma família no estado da Virgínia que é engolida pela "Guerra entre os Estados". Mas aqui, ao contrário do filme de Leone, há esperança ao final.
terça-feira, junho 29, 2010
...e alguns pensamentos sobre "A Few Dollars More"
"Where life had no value, death, sometimes, had it's price"...e assim nascem os caçadores de recompensa! Com esta frase, Leone abre seu segundo Western com Clint Eastwood (em um papel que quase foi de Lee Marvin). Mas se no primeiro, Eastwood é o personagem central, aqui ele divide a cena com Lee Van Cleef, no papel do Coronel Douglas Mortimer, um caçador de recompensas.
O vilão do filme é interpretado por Gian Maria Volante, no papel de El Indio, personagem que, apesar de sua violência e amoralidade, é perseguido pela morte de uma mulher enquanto ele a violentava. Esta culpa faz com que o personagem transcenda a simples "vilania", ao fim percebemos que El Indio está desde o ínicio buscando punição pela morte dessa mulher. El Indio ganha tons shakespearianos na interpretação de Volante.
Algumas curiosidades: O personagem de Eastwood tem nome! Ele chama-se Manco, mas a UA na época do lançamento do filme nos EUA cortou a cena em que era dito o nome dele, para assim manter a pecha "O homem sem nome".
Klaus Kinski trabalha no filme como um corcunda que faz parte do bando de El Indio.
O duelo circular, tão conhecido em "The Good, The Bad and The Ugly", teve sua primeira versão neste filme.
Tanto em "A Fistfull of Dollars", quanto em "A Few Dollars More", há referências, explícitas ou não, a ausência de moralidade no universo criado por Leone.
Uma dessas cenas é a reprodução da Santa Ceia em "A Fistfull...", onde os bandidos mexicanos se locupletam em bebida e comida, e em "A Few Dollars..." o discurso de El Indio, em uma igreja tomada pelos bandidos, onde ele conta a história de um "carpinterio".
O vilão do filme é interpretado por Gian Maria Volante, no papel de El Indio, personagem que, apesar de sua violência e amoralidade, é perseguido pela morte de uma mulher enquanto ele a violentava. Esta culpa faz com que o personagem transcenda a simples "vilania", ao fim percebemos que El Indio está desde o ínicio buscando punição pela morte dessa mulher. El Indio ganha tons shakespearianos na interpretação de Volante.
Algumas curiosidades: O personagem de Eastwood tem nome! Ele chama-se Manco, mas a UA na época do lançamento do filme nos EUA cortou a cena em que era dito o nome dele, para assim manter a pecha "O homem sem nome".
Klaus Kinski trabalha no filme como um corcunda que faz parte do bando de El Indio.
O duelo circular, tão conhecido em "The Good, The Bad and The Ugly", teve sua primeira versão neste filme.
Tanto em "A Fistfull of Dollars", quanto em "A Few Dollars More", há referências, explícitas ou não, a ausência de moralidade no universo criado por Leone.
Uma dessas cenas é a reprodução da Santa Ceia em "A Fistfull...", onde os bandidos mexicanos se locupletam em bebida e comida, e em "A Few Dollars..." o discurso de El Indio, em uma igreja tomada pelos bandidos, onde ele conta a história de um "carpinterio".
Algumas idéias sobre "A Fistfull of Dollars"
Curiosidades...já repararam que o personagem de Eastwood, chega montado em uma mula, é torturado, se esconde em caixão, passa uns dias em uma mina (caverna), volta e restaura a ordem na cidade e mais, a principal personagem feminina, Marisol, é casada com um José e tem um filho chamado Jesus.
Falam do cinismo do personagem, mas acredito que ele só se mete na história da cidade pq logo no início do filme, ele vê um dos vilões (adoro essa palavra), atirar em uma criança...isto é, a violência contra os inocentes é algo que não deve ser tolerada, nem mesmo por um wayfaring stranger, que inicialmente, não teria nada a ganhar naquela situação. Salvo um punhado de dólares.
E isto vocêss não sabem mesmo: Em 1977 foi produzido um prólogo para o filme que justificasse a violência do personagem de Eastwood. Isso foi feito para que o filme pudesse passar na TV americana na época. Hilarious! Usaram um dublê para fazer o papel do Eastwood e o Warren Dean Stanton é o cara que dá a missão de limpar a cidade para ele.
E mais, apesar de ser conhecido como "The Man With no Name", o personagem de Eastwood tem nome (ou é apelidado) de Joe. Quem o chama assim é o velhinho que faz caixões e enterra os mortos na cidade. No script, o personagem é chamado de Joe, the stranger.
Falam do cinismo do personagem, mas acredito que ele só se mete na história da cidade pq logo no início do filme, ele vê um dos vilões (adoro essa palavra), atirar em uma criança...isto é, a violência contra os inocentes é algo que não deve ser tolerada, nem mesmo por um wayfaring stranger, que inicialmente, não teria nada a ganhar naquela situação. Salvo um punhado de dólares.
E isto vocêss não sabem mesmo: Em 1977 foi produzido um prólogo para o filme que justificasse a violência do personagem de Eastwood. Isso foi feito para que o filme pudesse passar na TV americana na época. Hilarious! Usaram um dublê para fazer o papel do Eastwood e o Warren Dean Stanton é o cara que dá a missão de limpar a cidade para ele.
E mais, apesar de ser conhecido como "The Man With no Name", o personagem de Eastwood tem nome (ou é apelidado) de Joe. Quem o chama assim é o velhinho que faz caixões e enterra os mortos na cidade. No script, o personagem é chamado de Joe, the stranger.
sexta-feira, março 06, 2009
Watchmen - O Filme

Watchmen está nos cinemas e o que esperar?
Bom, acabei de chegar em casa, depois de mais de duas horas e meia de violência, sexo e delírio visual com uma certeza: Watchmen seria um filme muito melhor se seu diretor, Zack Snyder, se livrasse do vício de filmar toda cena de violência em slow motion, brincadeira da qual já havia usado e abusado em 300.
Divido com vocês algumas impressões, boas e más, que tive do filme.
Primeiro as boas:
- Watchmen consegue segurar o mistério de quem é o responsável pela caça aos mascarados, é claro que as pessoas que conhecem a história sabem de tudo, mas quem não conhece é ludibriado pela história, mérito para quem adaptou o quadrinho para o roteiro.
- Cada cena é um mar de referências, tanto à trama, como a acontecimentos ou pessoas que realmente existiram. O filme não trata o espectador como burro e há pequenos personagens, eventos e objetos de cena que remetem a algum aspecto da trama. Um bom conhecimento da história americana no século xx faz-se necessário para entender certos diálogos ou situações. Vale rever o filme para prestar atenção nos detalhes.
- Não há cenas amenas, da política, passando pelo sexo e violência, o filme não é para crianças. Mesmo sendo um filme de "heróis".
- As soluções encontradas para diminuir o complexo mundo do quadrinho são boas e apesar de não aprofundarem certos aspectos relevantes, deixa o espectador com vontade de ler o quadrinho. E isso é fundamental para um filme desse calibre e pretensão.
- Os atores estão muito bem. Eles conseguem passar, em meio aos exuberantes efeitos especiais, medo, fúria, tensão e a tristeza de suas vidas.
- O final, e digo isso sem temer a fúria dos apaixonados fãs, é melhor que o do quadrinho. Tudo bem, sei que no quadrinho há uma homenagem explícita aos quadrinhos de ficção e terror da década de 50, mas, para o filme, ficou muito bem amarrado.
- O filme mantém a mensagem do quadrinho. Não adianta um mundo perfeito quando ele é construido com o sangue de inocentes. Ah! Como no quadrinho, é clara a idéia de que certas idéias pacifistas, levam a um totalitarismo mascarado de benesses.
Alguns pontos fracos:
- Infelizmente o filme não se aprofunda muito bem na vida dos personagens, mesmo dos "heróis". Mas falha feio em não nos deixar simpatizar pelas pessoas comuns, ponto dos mais importantes e marcantes da HQ.
- Como disse lá em cima, as cenas de luta são todas filmadas no estilo 300, o que cansa um pouco e toma espaço da trama.
- Apesar da história estar amarrada, fica um pouco confusa para o público não-iniciado acompanhar tudo o que está acontecedo, principalmente com personagens secundários, que no filme parecem estar lá apenas como escada para os protagonistas. Na HQ eles são fundamentais para o contexto da história.
- Não há nada que explique o que é o jornal New Frontiersman, que faz com que quem não conhece o quadrinho fique se perguntando no derradeiro momento: "Quem são esses caras?"
No final de tudo dá para dizer o seguinte: quem conhece o quadrinho, se assistir sem idéias pré-concebidas ou preconceito, vai se divertir com os personagens agora tridimensionais. Quem não conhece, espero, vai correr para ler o quadrinho.
p.s. Batman - O Cavaleiro das Trevas e O Homem de Ferro, ainda são melhores.
Bom, acabei de chegar em casa, depois de mais de duas horas e meia de violência, sexo e delírio visual com uma certeza: Watchmen seria um filme muito melhor se seu diretor, Zack Snyder, se livrasse do vício de filmar toda cena de violência em slow motion, brincadeira da qual já havia usado e abusado em 300.
Divido com vocês algumas impressões, boas e más, que tive do filme.
Primeiro as boas:
- Watchmen consegue segurar o mistério de quem é o responsável pela caça aos mascarados, é claro que as pessoas que conhecem a história sabem de tudo, mas quem não conhece é ludibriado pela história, mérito para quem adaptou o quadrinho para o roteiro.
- Cada cena é um mar de referências, tanto à trama, como a acontecimentos ou pessoas que realmente existiram. O filme não trata o espectador como burro e há pequenos personagens, eventos e objetos de cena que remetem a algum aspecto da trama. Um bom conhecimento da história americana no século xx faz-se necessário para entender certos diálogos ou situações. Vale rever o filme para prestar atenção nos detalhes.
- Não há cenas amenas, da política, passando pelo sexo e violência, o filme não é para crianças. Mesmo sendo um filme de "heróis".
- As soluções encontradas para diminuir o complexo mundo do quadrinho são boas e apesar de não aprofundarem certos aspectos relevantes, deixa o espectador com vontade de ler o quadrinho. E isso é fundamental para um filme desse calibre e pretensão.
- Os atores estão muito bem. Eles conseguem passar, em meio aos exuberantes efeitos especiais, medo, fúria, tensão e a tristeza de suas vidas.
- O final, e digo isso sem temer a fúria dos apaixonados fãs, é melhor que o do quadrinho. Tudo bem, sei que no quadrinho há uma homenagem explícita aos quadrinhos de ficção e terror da década de 50, mas, para o filme, ficou muito bem amarrado.
- O filme mantém a mensagem do quadrinho. Não adianta um mundo perfeito quando ele é construido com o sangue de inocentes. Ah! Como no quadrinho, é clara a idéia de que certas idéias pacifistas, levam a um totalitarismo mascarado de benesses.
Alguns pontos fracos:
- Infelizmente o filme não se aprofunda muito bem na vida dos personagens, mesmo dos "heróis". Mas falha feio em não nos deixar simpatizar pelas pessoas comuns, ponto dos mais importantes e marcantes da HQ.
- Como disse lá em cima, as cenas de luta são todas filmadas no estilo 300, o que cansa um pouco e toma espaço da trama.
- Apesar da história estar amarrada, fica um pouco confusa para o público não-iniciado acompanhar tudo o que está acontecedo, principalmente com personagens secundários, que no filme parecem estar lá apenas como escada para os protagonistas. Na HQ eles são fundamentais para o contexto da história.
- Não há nada que explique o que é o jornal New Frontiersman, que faz com que quem não conhece o quadrinho fique se perguntando no derradeiro momento: "Quem são esses caras?"
No final de tudo dá para dizer o seguinte: quem conhece o quadrinho, se assistir sem idéias pré-concebidas ou preconceito, vai se divertir com os personagens agora tridimensionais. Quem não conhece, espero, vai correr para ler o quadrinho.
p.s. Batman - O Cavaleiro das Trevas e O Homem de Ferro, ainda são melhores.
p.s.2 - Ronald Reagan é o cara!!!
sábado, fevereiro 14, 2009
The Wrestler

Darren Aronofsky cresceu. Deixou de lado os truques que o fizeram famoso em Réquiem para um Sonho e a bobagem "espiritualizada" do A Fonte e fez um dos filmes mais tocantes que já assisti.
Seu novo filme, The Wrestler (O Lutador), conta a história de Randy "The Ram" Robinson, um dos personagens que entram para a grande galeria de lutadores/perdedores da história do cinema ao lado de Billy Flynn, Jake LaMotta, James Braddock, Rocky Balboa (sim, como não ver Stallone na cara deformada de Rourke?) e por uma estranha associação me lembrei do personagem Red Stovall do filme Honkytonk Man (que é um lutador de outra cepa...). Ao lado destes grandes personagens, Mickey Rourke nos traz Randy Robinson, O Cordeiro, que depois do auge na carreira nos anos 80 (preparem-se para relembrar ou conhecer o pior da música "oitocentista"), está em plena decadência.
E Aronofsky filma essa decadência de forma simples, com poucos truques visuais ou efeitos espetaculares de cortes e afins (há uma sútil utilização de efeitos sonoros que tornam determinadas cenas mais fortes, mais tristes). Trabalhando com uma perspectiva realista da história, Aronofsky consegue o principal, deixar Rourke mostrar o quão grande ator ele ainda é, mesmo por trás da cara deformada e do corpo calejado pelos excessos da vida.
Um detalhe importante da direção são as cenas de luta, que após tanto lugar comum que viraram padrão nos filmes sobre boxe, ganham em plasticidade e técnica nas mãos de Aronofsky, pode ser por causa do estilo de luta do filme, mas acredito que o diretor realmente mostrou que há ainda caminhos para se conseguir "entrar no ringue", junto com os personagens.
Voltando ao enredo da história, não há como não se emocionar vendo o drama de uma vida desmoronando à nossa frente, como não sentir pena das escolhas de Randy e de ter pena da vida que, desperdiçada, desacreditada, só encontra sua redenção na auto-mutilação e no vazio de uma noite de "espetáculo". O que mais me perturbou no filme foi perceber o quão próximo estamos daquele fim, daquele tempo que passou, que foi deixado de lado tão rapidamente (estamos falando de apenas vinte anos...portanto, muito cuidado com os "eternos" ídolos de hoje) e a forma com que nossos maus hábitos podem destruir nossas vidas de forma tão avassaladora. Mas ao mesmo tempo a beleza do filme está em mostrar que nossas falhas que devem ser assumidas por aqueles que são os mais responsáveis por elas, nós mesmos.
Um filme tocante, bonito e que vale a pena assistir. Mais ainda, vale a pena refletir sobre o quanto somos próximos em nosso dia a dia, em nossa luta diária, de Randy "The Ram" Robinson. Portanto, put your pants it's time to fight!
"She's got a smile that it seems to meReminds me of childhood memories Where everything Was as fresh as the bright blue sky Now and then when I see her face She takes me away to that special placeAnd if I'd stare too long I'd probably break down and cry."
sábado, fevereiro 07, 2009
Esse promete : Michael Mann, Christian Bale e Johnny Deep
Michael Mann dirige "Public Enemies", filme que conta a história de John Dillinger e do agente do FBI Melvin Purvis (respectivamente, Deep e Bale).
Se Mann consegui fazer com que Tom Cruise atuasse, imagine o que não fará com estes dois grandes atores. Sem contar que se seguir a linha do Miami Vice e do Colateral, aguardem muita violência e solidão.
Para fotos do filme, clique aqui.
Se Mann consegui fazer com que Tom Cruise atuasse, imagine o que não fará com estes dois grandes atores. Sem contar que se seguir a linha do Miami Vice e do Colateral, aguardem muita violência e solidão.
Para fotos do filme, clique aqui.
terça-feira, janeiro 27, 2009
Clint Eastwood

Clint Eastwood aparece na última Esquire dando bons conselhos. Destaque para seu comentário sobre a "pussy generation" e "you can't stop everything from happening".
Learn.
In the first place, I was taller than most kids in my classes. In the second, we were always moving. Redding. Sacramento. Pacific Palisades. Back to Redding. Back to Sacramento. Over to Hayward. Niles. Oakland. So we were constantly on the road, and I was always the new guy in school. The bullies always thought, Here's this big gangly guy. We gotta take him on. You know how kids are. We gotta test him. I was a shy kid. But a lot of my childhood was spent punching the bullies out.
I kind of had a feeling "Make my day" would resonate, based upon "Do you feel lucky, punk?" in the first movie. I thought that Smith & Wesson line might hang in there, too. But "Make my day" was just so simple.
I still get it a lot.
As you get older, you're not afraid of doubt. Doubt isn't running the show. You take out all the self-agonizing.
What can they do to you after you get into your seventies?
Even in grammar school they taught you to go with your first impression. It's like multiple-choice questions. If you go back and start dwelling, you'll talk yourself out of it and make the wrong pick. That's just a theory. I've never seen any studies on it. But I believe it.
As Jerry Fielding used to say, "We've come this far, let's not ruin it by thinking."
My father had a couple of kids at the beginning of the Depression. There was not much employment. Not much welfare. People barely got by. People were tougher then.
We live in more of a pussy generation now, where everybody's become used to saying, "Well, how do we handle it psychologically?" In those days, you just punched the bully back and duked it out. Even if the guy was older and could push you around, at least you were respected for fighting back, and you'd be left alone from then on.
The band guys were looked down upon when I was a kid. I remember playing the flügelhorn and everybody said, "What the...?"
I don't know if I can tell you exactly when the pussy generation started. Maybe when people started asking about the meaning of life.
If I'd had good discipline, I might have gone into music.
You wonder sometimes. What will we do if something really big happens? Look how fast -- seven years -- people have been able to forget 9/11. Maybe you remember if you lost a relative or a loved one. But the public can get pretty blasé about stuff like that. Nobody got blasé about Pearl Harbor.
I remember buying a very old hotel in Carmel. I went into an upper attic room and saw that all the windows were painted black. "What was going on here?" I asked the prior owners. They said they thought the Japanese were off the coast during the war.
The Korean War was only a few years after World War II. We all went. But you couldn't help but think, Shit. What the hell? What have we gained? One minute you're unleashing the tremendous power of nuclear fission, and then a few years later you're jockeying back and forth on the 38th parallel. It seemed so futile.
In Changeling, I tried to show something you'd never see nowadays -- a kid sitting and looking at the radio. Just sitting in front of the radio and listening. Your mind does the rest.
I remember going to a huge waterfall on a glacier in Iceland. People were there on a rock-platform overlook to see it. They had their kids. There was a place that wasn't sealed off, but it had a cable that stopped anybody from going past a certain point. I said to myself, You know, in the States they'd have that hurricane-fenced off, because they're afraid somebody's gonna fall and some lawyer's going to appear. There, the mentality was like it was in America in the old days: If you fall, you're stupid.
You can't stop everything from happening. But we've gotten to a point where we're certainly trying. If a car doesn't have four hundred air bags in it, then it's no good.
My father died very suddenly at sixty-three. Just dropped dead. For a long time afterward, I'd ask myself, Why didn't I ask him to play golf more? Why didn't I spend more time with him? But when you're off trying to get the brass ring, you forget and overlook those little things. It gives you a certain amount of regret later on, but there's nothing you can do about it. So you just forge on.
Smaller details are less important. Let's get on with the important stuff.
I've got a good crew that is very familiar with me. I don't have to say a lot to 'em. We just set up the shot, and I depend on everybody to do their parts. I just say, "Okay...."
What happened is I was going to college in 1950. L. A. City College. A guy I knew was going to an acting class on Thursday nights. He started telling me about all the good-lookin' chicks and said, "Why don't you go with me?" So I probably had some motivation beyond thoughts of being an actor. And sure enough, he was right. There were a lot of girls and not many guys. I said, "Yeah, they need me here." I wound up at Universal as a contract player.
People love westerns worldwide. There's something fantasylike about an individual fighting the elements. Or even bad guys and the elements. It's a simpler time. There's no organized laws and stuff.
The last one I did was in '92. Unforgiven. That was a wonderful script. But it seemed like it was the end of the road for me with the genre, because it sort of summarized everything I felt about the western at that particular time.
I had an issue before the council. I remember getting up, and there was a lady who sat and knitted the whole time, never looked up. "No, no, no," she said. And I thought, This can't be. When you're elected, you have to at least pretend like you're interested in what people are there for. How do you have the chutzpah to just sit there, not pay attention, not interact at all? It needed to be corrected.
Winning the election is a good-news, bad-news kind of thing. Okay, now you're the mayor. The bad news is, now you're the mayor.
It's making sure that the words "public servant" are not forgotten. That's why I did it. 'Cause I thought, I don't need this. The fact that I didn't need it made me think I could do more. It's the people who need it that I'm suspect of.
Barack Obama was unimaginable back when I was a kid. Count Basie and a lot of big bands would come through Seattle when I was young. They could play at a club, but they couldn't frequent the place.
When you listen to Ray Charles, there's never any doubt whose voice that is.
You should really get to know somebody, really be a friend. I mean, my wife is my closest friend. Sure, I'm attracted to her in every way possible, but that's not the answer. Because I've been attracted to other people, and I couldn't stand 'em after a while.
I'm past doing one chin-up more than I did the day before. I just kind of do what I feel like.
I have children by other women. I gotta give Dina the credit for bringing everyone together. She never had the ego thing of the second wife. The natural instinct might have been to kill off everybody else. You know, the cavewoman mentality. But she brought everybody together. She's friendly with my first wife, friendly to former girlfriends. She went out of her way to unite everybody. She's been extremely influential in my life.
I'm not one of those guys who's been terribly active in organized religion. But I don't disrespect it. I'd never try to impose any doubts that I might have on anyone else.
A good joke is a good joke whenever. But my kids make me laugh now.
Children teach you that you can still be humbled by life, that you learn something new all the time. That's the secret to life, really -- never stop learning. It's the secret to career. I'm still working because I learn something new all the time. It's the secret to relationships. Never think you've got it all.
As you get older, you like kids a lot more.
The innocence of childhood is like the innocence of a lot of animals.
Kids piercing themselves, piercing their tongues -- what kind of masochism is that? Is it to show you can just take it?
No, I don't have to practice that grunt. You just do it. Once you're in character, you're in character. You don't sit there purposely thinking, Well, I'll grunt here, or I'll groan there.
That's why I don't rehearse a lot and why I shoot a lot immediately. I have ideas of where I'd like to take the character, but we both end up going together.
We were doing In the Line of Fire, and John Malkovich was on top of the building, and he has me in a real precarious situation. My character is crazed and he pulls out a gun and sticks it into John's face, and John puts his mouth over the end of the gun. Now, I don't know what kind of crazy symbol that was. We certainly didn't rehearse anything like that. I'm sure he didn't think about it while we were practicing it. It was just there. Like Sir Edmund Hillary talking about why you do anything: Because it's there. That's why you climb Everest. It's like a little moment in time, and as fast as it comes into your brain, you just throw it out and discard it. Do it before you discard it, you know?
It keeps coming back to "We've come this far, let's not ruin it by thinking."
You look at Velázquez in his dark years and you wonder, How the hell did he get that way? I'm sure he didn't say to himself, "I'm in my dark period right now, so I'm going to paint this way." He just did it. That's when real art gets a chance to come into play.
Million Dollar Baby won the Academy Award. That was nice, that was great. But you don't dwell on it. An awful lot of good pictures haven't won Academy Awards, so it doesn't have much bearing. Letters from Iwo Jima was nominated for an Academy Award. We didn't win it, but that picture was still as good as I could do it. Did it deserve it less than some other picture? No, not really. But there are other aspects that come into it. In the end, you've just got to be happy with what you've done. There you are.
Eastwood stars in Gran Torino, currently in theaters. It is his twenty-ninth film as a director.
Interviewed by Cal Fussman, November 3, 2008
Interviewed by Cal Fussman, November 3, 2008
sábado, janeiro 24, 2009
terça-feira, janeiro 20, 2009
Nossa tão sagrada vida privada.

A editora Record já está em processo de tradução do livro The Whisperers, do autor Orlando Figes. O livro trata da vida privada na rússia stalinista trazendo à luz todo o horror, paranóia e medo que se istalaram na vida pessoal dos russos naquele período. O aspecto central do livro são os diarios familiares, as anotações cotidianas daqueles que, mesmo sem intenção, terminaram por colaborar com a repressão estatal. É interessante perceber o quão maquiavélico é um sistema que faz com que pessoas comuns tornem-se agentes de vigilância, defensores da moral revolucionária ou meros aproveitadores da tragédia alheia.
E há pouco saiu um filme (em dvd) que retrata essa mesma tragédia mas de uma perspectiva mais microscópica: A Vida dos Outros. O filme do diretor alemão Florian Henckel von Donnersmarck,ganhou o oscar de melhor filme estrangeiro em 2007, e tem como premissa a vida de um agente da Stasi (a polícia secreta da então Alemanha Oriental) e seu envolvimento ao iniciar a vigilância de um casal de artistas, um dramaturgo e sua principal atriz.
Logo de início somos apresentados aos metódos de interrogatório e treinamento de um agente da Stasi , que são ensinados de forma contundente à uma classe de aspirantes a agentes do Estado pelo personagem do capitão Gerd. No desenrolar do filme, von Donnersmarck vai mostrar a força desse Estado policialesco e ao mesmo tempo apresentar as personagens que irão se interligar ao do capitão Gerd, não apenas pelo processo de vigilância, mas também pela percepção deste da delicadeza e temor que envolvem a vida privada do casal (Georg, um dramaturgo que aceita a sua condição de porta-voz artístico do regime e sua namorada, a atriz Christa), que passa a ser sua obsessão, sua forma de ter uma vida. Ao ir revelando a vida privada deste casal, o capitão Gerd começa a tomar consciência de seu papel naquele horror e também de sua própria consciência e solidão de Homem do Estado.
Talvez o ponto mais importante do filme, assim como no livro de Figes, seja a clara idéia de que nossa vidas pessoais, nosso cotidiano privado, é um dos poucos lugares onde há um certo nível de liberdade indívidual e que abrir mão disso é um caminho certo para o totalitarismo.
A Vida dos Outros, ainda que alguns não consideram um grande filme, já devia marcar a história do cinema por retratar um dos regimes mais monstruosos criados pelo Homem e nos fazer pensar que, ao aceitarmos a condição de estetas oficiais de um governo (qualquer que seja ele) a possibilidade de perdemos nossa alma é imensa e que a redenção, talvez, só venha através de um anônimo número perdido nos papéis burocráticos.
E há pouco saiu um filme (em dvd) que retrata essa mesma tragédia mas de uma perspectiva mais microscópica: A Vida dos Outros. O filme do diretor alemão Florian Henckel von Donnersmarck,ganhou o oscar de melhor filme estrangeiro em 2007, e tem como premissa a vida de um agente da Stasi (a polícia secreta da então Alemanha Oriental) e seu envolvimento ao iniciar a vigilância de um casal de artistas, um dramaturgo e sua principal atriz.
Logo de início somos apresentados aos metódos de interrogatório e treinamento de um agente da Stasi , que são ensinados de forma contundente à uma classe de aspirantes a agentes do Estado pelo personagem do capitão Gerd. No desenrolar do filme, von Donnersmarck vai mostrar a força desse Estado policialesco e ao mesmo tempo apresentar as personagens que irão se interligar ao do capitão Gerd, não apenas pelo processo de vigilância, mas também pela percepção deste da delicadeza e temor que envolvem a vida privada do casal (Georg, um dramaturgo que aceita a sua condição de porta-voz artístico do regime e sua namorada, a atriz Christa), que passa a ser sua obsessão, sua forma de ter uma vida. Ao ir revelando a vida privada deste casal, o capitão Gerd começa a tomar consciência de seu papel naquele horror e também de sua própria consciência e solidão de Homem do Estado.
Talvez o ponto mais importante do filme, assim como no livro de Figes, seja a clara idéia de que nossa vidas pessoais, nosso cotidiano privado, é um dos poucos lugares onde há um certo nível de liberdade indívidual e que abrir mão disso é um caminho certo para o totalitarismo.
A Vida dos Outros, ainda que alguns não consideram um grande filme, já devia marcar a história do cinema por retratar um dos regimes mais monstruosos criados pelo Homem e nos fazer pensar que, ao aceitarmos a condição de estetas oficiais de um governo (qualquer que seja ele) a possibilidade de perdemos nossa alma é imensa e que a redenção, talvez, só venha através de um anônimo número perdido nos papéis burocráticos.
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Benjamin Button e a celebração da vida.

O Curioso Caso de Benjamin Button, novo filme de David Fincher e o terceiro com Brad Pitt é uma celebração da vida madura. Uma celebração do inevitável, uma celebração do tempo que marca nosso rosto à cada dia com rugas de sabedoria e perdas, defeitos e cicatrizes que se acumulam em nossa trajetória única.
O filme, como todos estão cansados de saber, é baseado em um conto de Scott Fitzgerald( que não irei comentar aqui, pois infelizmente não o li) e narra a vida de Benjamin Button, nascido em Nova Orleans em 1918 com a curiosa peculiaridade de com o passar dos anos, ao contrário de nós, rejuvenescer à cada dia. E através de sua curiosa vida (e de seus curiosos olhos) acompanhamos o processo de nossa trajetória rumo ao fim.
Fincher, conhecido por seus filmes transgressores e violentos (penso em Seven e Clube da Luta), consegue contar uma história delicada e singela. Principalmente quando, ao contrário do que se espera, é a velhice que é tratada com dignidade e respeito. A princípio, poderiamos supor que é a juventude que seria exaltada e glorificada. Mas não, é justamente na beleza de nosso devir e decadência que o diretor pousa seus olhos e portanto os nossos. Lembrando-nos que na maior parte de nossa juventude, essa fase hoje tão celebrada, idolatrada, que tentamos e somos tentados a prolongar com plásticas, hábitos saudáveis e até negando com o tão famigerado termo "terceira idade", nada mais somos que pretensiosos e inconsequentes crianças-adultas para quem a dor alheia é apenas um incômodo.
Sim, o tempo e a morte não poupam ninguém, e relembrar isso, e aceitar isso é algo que tememos e evitamos comentar ou mesmo lembrar. E é somente compreendendo e aceitando nossa fragilidade que iremos entender que nossas vidas, mesmo as mais simples, tem cada qual sua curiosidade, sua peculiridade. E no fim, no derradeiro fim, o que podemos esperar senão um olhar de reconhecimento e caridade para este vasto e curioso mundo.
Um pequeno p.s. : Brad Pitt está muito bem no papel de Benjamin Button, principalmente nos momentos em que o personagem está "velho"; Cate Blanchett é um caso à parte, uma das maiores atrizes de nossa época, simplesmente belíssima e encantadora, seja como uma jovem menina de 22 anos, seja como uma octagenária na cama de um hospital em seu derradeiro momento.
quarta-feira, janeiro 14, 2009
Eastwood, a verdade e um pouco de esperança.

Depois de um dia de trabalho duro, marquei um encontro que há pelo menos vinte anos tenho:
assistir a um filme de Clint Eastwood.
Hoje, o maior diretor de cinema vivo (e maior no sentido de profundidade temática, uso criterioso da linguagem e a capacidade de revelar o melhor de um ator pelo que esconde dele, eis a grandiosidade deste senhor), o mais produtivo (2 filmes por ano é sua média atual), e de longe o mais criativo (criativo aqui não no sentido de experimentalismos, mas na utilização do cinema para simplesmente contar uma história), mesmo depois de obras-primas como Os Imperdoáveis, Bird e Sobre Meninos e Lobos, consegue se superar.
The Changeling, com Angelina Jolie (esqueçam as critícas que leram por aí, ele consegue tirar dela a mais tocante atuação de sua carreira), está em cartaz, com toda a sutileza da vida humana que marca o trabalho de Eastwood (principalmente na sua última fase, que começa com Bird).
O filme, inicialmente, parece tratar de uma história simples (como o Menina de Ouro, que inicialmente é apenas uma história de boxe, ou A Conquista da Honra, que parece apenas mais um filme de guerra) mas no desenrolar do filme, percebemos que essa "simples" história de uma mãe em busca do filho trás em seu centro nossa relação com a verdade. Com a verdade em seu estado simbólico mais puro: a certeza de uma mãe (tema que aparece também no - A Conquista da Honra, quando uma das mães reconhece seu filho na famosa foto pelo traseiro deste.)
E esta simples verdade materna é posta à prova, é desafiada, ameçada, brutalizada e até mesmo perto do fim do filme, chega-se ao cúmulo de ser falsamente apaziguada, para ser novamente reafirmada e por fim, atingir um estado não de redenção. Mas da esperança da redenção.
Mais que um grande filme, Eastwood mostra, mais uma vez, que em nossas pequenas escolhas, que em nossos momentos mais solitários pode-se ganhar tudo ou perder tudo. Mas que as escolhas são nossas e preservar a verdade por nossos atos é algo que nada, nem o Estado, nem seus médicos, nem sua policia, nem nossos supostos redentores (fina ironia, uma redenção falsa nas mãos de um serial-killer) pode ou tem o direito de fazer por nós. E que no final, se temos esperança, dor, perda, eis ai a nossa dor, a nossa esperança e a nossa perda.
"Go To Hell And The Horse You Rode In On"
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